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Notícias

17 de Março, 2020

O Futuro do Cooperativism

Diretor geral da International Cooperative Alliance, Bruno Roelants, analisa os próximos passos das cooperativas considerando ambiente econômico global, as inovações tecnológicas e a forte concorrência das novas empresas convencionais no mundo digital. Há cerca de 40 anos, Bruno Roelants deixou uma empresa de objetos artesanais para ingressar em serviços comunitários. ele coordenou os trabalhos de educação em escolas de Roma (Itália) e acompanhou projetos de saúde para a população carente de Bangladesh, Burkina Faso e Bolívia por meio da organização não governamental freres des hommes (do francês, irmãos dos homens). Em suas veias já corriam o senso coletivo, o caráter solidário e a vontade de fazer o mundo melhor. Valores absolutamente condizentes com o universo das cooperativas.

De lá para cá, não por acaso, Roelants entrou de vez no universo das cooperativas onde ocupou posição de liderança na European Confederation of Industrial and Service Cooperatives e coordenou projetos de fortalecimento institucional. Depois, passou pelo escritório regional europeu da International Cooperative Alliance (ICA), onde desenvolveu estudos e projetos sobre legislação e governança. Com uma trajetória sólida e de bons resultados, há dois anos assumiu a direção geral da ICA, posição que lhe permite a análise de dados, a promoção e a valorização das cooperativas em âmbito global.

Roelants é mestre em estudos sociais e pesquisador por excelência. Ele vê nas estatísticas um pilar relevante para a disseminação e o reconhecimento público das cooperativas e seus valores. Uma outra forma de divulgação que lhe atrai são os livros. O diretor geral da ICA é autor de “O Capital e a armadilha da dívida: aprendizados das cooperativas em crises globais”, pela Editora Palgrave MacMillan, em 2011, e “Cooperativas e o Mundo do Trabalho”, da Editora Routledge, publicado em julho de 2019.

MundoCoop – Qual é o saldo dos primeiros anos do senhor como diretor geral da ICA?

O saldo é positivo. Assumi o cargo em abril de 2018, mas em novembro de 2017 a assembleia geral elegeu um novo presidente e o conselho da ICA. Era o fim de um período marcado pelo Projeto para uma Década Cooperativa. Então a assembleia geral solicitou um planejamento para o ciclo 2020-2030. Com a equipe, nós fizemos um esforço importante para, por meio de pesquisa, entender o que os membros da ICA em todo o mundo precisavam e queriam da ICA. Após um ano e meio de consultas com membros, regiões, setores, comitês temáticos e rede de jovens da ICA, nos juntamos ao conselho da ICA e montamos uma nova estratégia. Ela foi aprovada na última assembleia geral, em outubro, e esta é a nossa maior conquista. Em termos de resultados, destaco ainda os do campo político, com três marcos: a aprovação das primeiras diretrizes sobre estatísticas das cooperativas para a Conferência Internacional da Organização Internacional do Trabalho; a inclusão das cooperativas e a economia social e solidária na Declaração Centenária da OIT sobre o Futuro do Trabalho; o último relatório do secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre cooperativas, que enfatiza o fato de termos introduzido os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Monitor Cooperativo Mundial, bem como a importância do direito cooperativo e das cooperativas de saúde.

MundoCoop – Quais são os desafios do movimento cooperativista atualmente? Existem tendências para este e os próximos anos?

O cooperativismo já é uma enorme realidade no mundo: cerca de 12% da humanidade são membros de cooperativas. O movimento cooperativo representa 10% do total do emprego global. Isso é prova de que as cooperativas enfrentaram vários desafios com sucesso no passado, falo de guerras mundiais, guerra fria, divisão do mundo em blocos políticos rígidos e várias crises econômicas. Como as cooperativas estão lá para atender às necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais das pessoas comuns, o principal desafio a enfrentar é como elas se adaptam ao mundo com crescentes desigualdades, migrações, conflitos e degradação ambiental. Além disso, como as cooperativas podem funcionar mantendo sua governança democrática e a capacitação das pessoas no processo. Isso é fundamental em um mundo amplamente dominado economicamente e politica- mente por empresas convencionais preocupadas com lucratividade.

MundoCoop – A alta tecnologia vai reduzir emprego nas cooperativas?

Todas as cooperativas, incluindo as seguradoras e as agrícolas, precisam atualizar sua estrutura de força de trabalho para as novas condições de tecnologia, concorrência e etc. Dito isto, as cooperativas tendem a manter o emprego sempre que possível.

MundoCoop – A ICA acompanhou recente- mente algum caso inovador capaz de se tornar tendência do cooperativismo?

Atualmente, a ICA e seus órgãos estão trabalhando na análise e pro- moção de novas formas de cooperativas. Entre elas, devemos mencionar as cooperativas baseadas nas plataformas de Internet, as cooperativas que promovem freelancers com serviços básicos e melhoram os status trabalhistas e de proteção social, as cooperativas multissetoriais, em que dois ou mais tipos de membros coexistem e têm peso semelhante na tomada de decisões, como exemplo entre trabalhadores, produtores e usuários, além das cooperativas sociais, envolvidas em serviços de interesse geral ou na integração trabalhista de pessoas desfavorecidas. É provável que esses vários tipos de cooperativas se tornem grandes no futuro.

MundoCoop – O cooperativismo está mais alinhado ao capitalismo ou socialismo? A participação política dos membros do cooperativismo em todo o mundo deveria ser maior?

O cooperativismo não se alinha nem ao capitalismo nem ao socialismo, nem a qualquer outro sistema político e econômico. A questão é sobre quais sistemas políticos tendem a permitir que essas empresas existam e se desenvolvam melhor, e quais não, ou cujas tipologias políticas e econômicas por si só geram dificuldades de regulamentação e ação. As cooperativas foram praticamente eliminadas, pelo menos no que diz respeito às suas principais características, em alguns períodos totalmente totalitários, como fez a China durante o grande salto para o futuro e a revolução cultural proletária, em 1966, ou a Alemanha nazista. Por sua vez, morei muitos anos na China nas décadas de 1980 e 1990, e trabalhei em projetos que promoviam cooperativas e os obstáculos tinham mais a ver com a ignorância e arbitrariedade das autoridades locais em áreas remo- tas e subdesenvolvidas do que com o sistema político. Por outro lado, na União Europeia, várias disposições regulamentares não são favoráveis às cooperativas, porque essas não são suficientemente levadas em consideração. A participação dos membros das cooperativas na política deve ser melhorada e ainda há muito progresso a ser feito neste campo.

MundoCoop – O senhor e outros grandes líderes do universo das cooperativas vêm demonstrando, inclusive por meio de livros, preocupação com o crescente uso da tecnologia. Seja pela substituição de trabalhadores por máquinas ou pelo excesso de química no solo e nos alimentos, o que pode ser feito a favor das raízes do cooperativismo?

As cooperativas precisam equilibrar o interesse de seus membros com a necessidade de atualizações tecnológicas importantes. As cooperativas promovem a economia social e solidária, trabalho decente, emprego produtivo, melhores padrões de vida para todos e o desenvolvimento sustentável. A principal coisa que precisamos ajudar a garantir é que todas as cooperativas funcionem de acordo com a lógica cooperativa. Também precisamos reportar melhor globalmente, aos membros das cooperativas, às organizações internacionais, governos, organizações da sociedade civil, sobre o que as cooperativas realmente fazem sobre isso.
 
publicado em 12 de março

Por Redação MundoCoop – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92