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07 de Agosto, 2019

Cooperativismo de plataforma é a alternativa para um capitalismo mais humanizado

Cooperativas de plataforma, ainda incipiente no Brasil, podem ser uma alternativa inteligente socialmente correta para fazer frente a gigantes como Uber e Airbnb No universo digital, mundo para onde, até o início da próxima década, todos navegarão ou dependerão direta ou indiretamente, o termo “cooperativas de plataforma” vem tomando corpo e ganhando importância. Se você ainda não sabe bem ao certo o que significa (e, acredite, em breve vai ouvir muito falar sobre isso aqui no Brasil) podemos, de bate e pronto, resumir da seguinte forma: são organizadas, como o nome sugere, de acordo com os princípios cooperativos e funcionam no ambiente digital.

A ideia inicial das cooperativas de plataforma (pode-se chamar também de cooperativas digitais) foi oferecer aos prestadores de serviços (cooperados) uma alternativa mais justa às oferecidas por plataformas digitais já bem conhecidas como Uber, Airbnb, Amazon, Mercado Livre, etc. Essas empresas começaram suas atividades prometendo algo que, efetivamente e com o tempo, não entregaram. Exemplo emblemático: todos imaginavam que o Uber, além de oferecer benefícios óbvios aos usuários, também o faria aos motoristas que se cadastrassem para oferecer serviços semelhantes aos dos táxis.

A frustração veio rápido. Motoristas de Uber sabem muito bem que o maior beneficiário deste sistema é a plataforma digital que fica, em média, com 30% do valor de cada viagem. O motorista, que arca com todos os demais custos da operação (carro, combustível, depreciação do veículo e hora trabalhada), fica com 70%. À primeira vista parece um negócio excelente, mas ao se fazer a equação desses custos, a matemática claramente mostra o quanto essa operação é vantajosa para o Uber e perdulária para os motoristas.

Por isso é preciso ficar bem claro: não confunda cooperativa de plataforma com plataformas de compartilhamento. A primeira segue à risca os princípios fundamentais do cooperativismo onde a união de pequenos torna um negócio grande. A segunda é um negócio que se tornou grande explorando o trabalho de pequenos.  

Uma maneira bastante esclarecedora para ilustrar essa diferença entre cooperativa de plataforma e plataforma de compartilhamento remonta ao surgimento das primeiras cooperativas do século 19. Naquela época, pequenos produtores se organizaram, juntaram força, para enfrentar a podeorosa “plataforma” da época: as fábricas surgidas com a Revolução Industrial.

As cooperativas de plataforma, inspiradas nessa longa tradição de colaboração, pretendem agora oferecer saídas de equilíbrio e justiça nas relações de trabalho e negócio, dentro do universo digital. Esse movimento, cujos reflexos no Brasil ainda são muito incipientes, começou em 2015, quando dois professores estadunidenses, Trebor Scholz e Nathan Schneider, lançaram um livro abordando o tema da economia compartilhada, seus problemas e apontaram como solução mais humanizada e justa as plataformas cooperativas.

Os autores explicam que as cooperativas de plataforma ou plataformas cooperativas são instituições cooperativas que atuam no mercado tecnológico, mais especificamente, como plataformas de serviços online, só que orientadas pelos princípios cooperativistas.

Na visão dos autores, não se trata, porém, de uma simples demanda evolutiva do cooperativismo frente às novas tecnologias, mas trata-se, sobretudo, de desenvolver alternativas mais justas de negócios neste novo panorama da economia compartilhada, com espaço para maior diversificação e melhor distribuição de benefícios.

Scholz que é um fervoroso defensor do cooperativismo e ferrenho crítico dessas outrora “startup” e agora poderosas empresas digitais, aproveitou a chance de sua projeção internacional para estabelecer os três mandamentos do cooperativismo de plataforma. São eles:

1) Abraça as mesmas tecnologias da economia de compartilhamento, mas com modelo de propriedade que adere a valores democráticos

2) Abraça a solidariedade, que é indispensável quando a força de trabalho é distribuída e, muitas vezes, anônima

3) Ressignifica conceitos como inovação e eficiência, porque visa a benefícios para todos e não à sucção de lucros para poucos

Ler e interpretar corretamente esses três conceitos bastam para entender perfeitamente bem o que sugerem as cooperativas de plataforma. É, em síntese, uma opção à onda de startups criadas para obterem altos lucros explorando pequenos e independentes servidores do processo. O que Scholz defende é uma boa combinação de branding e compartilhamento que pode resultar em marcas socialmente relevantes e efetivamente coletivizadas.

Para Scholz, a ideia central não é eliminar os dispositivos tecnológicos, mas estabelecer uma lógica que seja mais benéfica para os trabalhadores e para a economia local. “Qual é a lógica de se encaminhar para uma empresa do Vale do Silício os lucros da locação de curto prazo no Rio de Janeiro, São Paulo ou Recife, entregues através da plataforma de software americana Airbnb?”. Segundo o estudioso, essa economia pode ser operada de forma diferente, justa e em benefício das comunidades locais. “O cooperativismo de plataforma trata da criação de uma economia digital diversificada, onde também alternativas éticas têm espaço para prosperar e oferecer um futuro justo de trabalho a um segmento da economia”, propõe.

Bons exemplos deste tipo de iniciativa já despontam pelo mundo, particularmente nos Estados Unidos. Scholz traz no seu trabalho exemplos de cooperativas de plataformas digitais que deram certo. Uma delas é a Open Group Cooperativa, de Nova York, que é constituída por trabalhadoras de limpeza e cuidadores de crianças. A Open Group eliminou completamente o modelo de intermediação entre prestadores de serviço e clientes. Além de maior retorno financeiro, as trabalhadoras têm voz decisiva e são sócios da empresa. O professor também destaca a experiência da Green Táxi Cooperative, na cidade de Denver, capital do Colorado, Estados Unidos, onde motoristas imigrantes formaram a empresa com o apoio do sindicato, para fazer frente ao Uber, atendendo hoje 37% dos usuários locais. Outra experiência é da Stocksy, uma cooperativa canadense de fotógrafos e artistas de imagem que já faturou 7 bilhões de dólares e reúne cerca de mil profissionais.

De acordo com Scholz, para a cooperativa dar certo os empreendedores precisam estabelecer o valor correto dos serviços para o mercado onde o trabalho será implementado. “A Stocksy é um bom exemplo, pensado por pessoas que já tinham experiência naquele mercado, sabiam exatamente qual era a demanda e qual a proposição de valor”.

O estudioso também afirmou que, diferente das grandes corporações, as cooperativas dispõem seus dados organizacionais na internet, de forma aberta e democrática, salientando ainda que dificilmente as experiências avançaram em precarização. Muito pelo contrário, o modelo dessas organizações é mais transparente e democrático, e aumenta o poder de ganho dos trabalhadores pela inexistência do intermediário.

O pesquisador em Direito e Sociedades Digitais, Rafael Augusto Ferreira Zanatta, traduziu para o português o livro de Scholz “Cooperativismo de Plataforma”. Zanatta, também criador da Rede Economia Social, além de tradutor, é também um defensor e propagador das ideias de Scholz. “Nas várias experiências que a gente mapeou, sempre tem essa união: tem trabalhadores, tem o ativista e tem o programador. Acho que o que falta no Brasil é juntar esses três grupos. Esses grupos estão muito isolados. Se a gente tiver mais diálogo e fazer com que as pessoas conversem, a gente pode tentar florescer esses mercados de cooperativa de plataforma aqui no Brasil. É isso que está faltando”.

Zanatta explicou que o período áureo dos aplicativos vendidos pelas grandes corporações começou em 2014 e está entrando em declínio, isso porque as pessoas estão se dando conta que o retorno financeiro prometido é ilusório. “Esse despertar é tardio porque a pessoa percebe isso depois de seis meses, um ano, um ano e meio trabalhando com as plataformas. Então já vi vários motoristas (de Uber) se organizando com seus sindicatos. Em João Pessoa tem um caso, por exemplo, de uma cooperativa que foi formada a partir de um sindicato de motoristas, eles criaram o próprio aplicativo para concorrer”.

Ao criar uma alternativa cooperada para enfrentar uma gigante da economia compartilhada o principal temor é como os pequenos grupos de prestação de serviços locais vão conseguir concorrer com essas empresas mais estruturadas e com alto poder econômico inclusive para fazer campanhas publicitárias massivas. Zanatta acredita que a comunicação entre trabalhadores e clientes locais pode ser uma alternativa e cita o caso dos trabalhadores motoristas de João Pessoa que distribuíram panfletos pela cidade mostrando a perda de receita que eles sofriam por trabalhar com aplicativos como o Uber ou o 99 Taxi.

No Brasil, a discussão sobre o cooperativismo digital está começando. Mas, sem dúvida, é uma excelente oportunidade para expandir o interesse sobre o cooperativismo já existente no País (que conta hoje com sete mil cooperativas e mais de 13 milhões de cooperados, de acordo com dados da OCB), estreitando o seu diálogo principalmente com públicos mais jovens.

A revista norte-americana Yes Magazine publicou em sua edição online um artigo assinado pelo escritor especializado em revolução digital Gideon Rosenblatt abordando a urgência e os desafios para o surgimento de novas cooperativas nos setores de tecnologia, o que chama de “cooperativas de plataforma”, ou plataformas cooperativas.

Rosenblatt destaca que, com o aumento acelerado das plataformas online de serviços compartilhados, o emprego como conhecemos atualmente está desaparecendo. “À medida que a automação e a inteligência artificial custam empregos em um setor econômico após o outro, a renda relacionada ao emprego diminui e a receita de investimentos se expande, exacerbando a disparidade de riqueza”.

As plataformas cooperativas alteram essa equação ao ampliar a propriedade das empresas que constroem e operam essas tecnologias. Rosenblatt ilustra bem seu pensamento com criatividade: “A Uber é uma empresa criada em uma plataforma de software que conecta provedores de serviços aos clientes. Se fosse uma cooperativa de plataforma, ela seria de propriedade das pessoas que fornecem o serviço, de seus usuários ou de ambos”.


Exemplos de Cooperativas de Plataforma

Fairmondo
Cooperativa digital de comércio online presente
na Alemanha e na Inglaterra, a Fairmondo é uma espécie de ebay coletivo, de propriedade dos
próprios usuários.

Green Taxi Cooperative
Cooperativa de taxistas de Denver, EUA, que já conta com mais de 800 motoristas cooperados, além de app
ao estilo do Uber.

Loconomics
Cooperativa de profissionais autônomos
de serviços. A plataforma – de propriedade dos próprios trabalhadores – ajuda-os a encontrarem clientes.

Stocksy
É um banco de imagens criado por uma cooperativa digital de fotógrafos e videomakers, os quais, assim, podem receber melhor pelo compartilhamento
do seu trabalho.

Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 88